Sem proteção social não existe trabalho decente

No Dia Mundial do Trabalho Decente, Christina Hajagos-Clausen, da IndustriALL fala sobre o impacto da COVID-19 sobre os trabalhadores e trabalhadoras nas indústrias de confecções

Escrito por: IndustriALL - Tradução de João Andrade • Publicado em: 07/10/2021 - 11:56 • Última modificação: 07/10/2021 - 12:03 Escrito por: IndustriALL - Tradução de João Andrade Publicado em: 07/10/2021 - 11:56 Última modificação: 07/10/2021 - 12:03

Arte: Diego Orejuela

Quando Pavi perdeu seu trabalho há dois anos, tudo mudou. Anteriormente, tinha trabalhado como operária numa fábrica de confecções de Bangladesh por mais de uma década. Agora, perdeu sua fonte de renda e está lutando para conseguir sustentar seus três filhos.

“Tenho três filhos. Meu marido está parado, muito doente. Sou a única que sustenta a familia. Meus filhos estudam. Tenho que pagar as despesas médicas. Tenho muitos gastos. Quase não posso suportar. As crianças estão na escola e preciso de dinheiro, mas não consigo nada”.

Os países do hemisfério sul que produzem ropa oferecem baixos impostos e uma regulação relaxada para as grandes marcas, mas são poucas as que cumprem suas obrigações trabalhistas.

O caso de Pavi, a mulher citada acima, não é isolado. No mundo, pooucos trabalhadores do setor de confecções contam com uma rede de proteção social. Uma enfermidade, uma gravidêz ou uma demissão podem levar as famílias à pobreza extrema.

A pandemia de COVID-19 ampliou a vulnerabilidade de trabalhdores e trabalhadoras desse setor.

Shayan, outro entrevistado, foi demitido depois de faltar no trabalho porque sua esposa estava doente. Trabalhava na mesma fábrica há cinco anos. Sua esposa tinha câncer e foi hospitalizada depois de contrair coronavírus. “Quando retornei para trabalhar na fábrica, me disseram que não precisava voltar no dia seguinte. Usaram uma linguagem muito ofensiva”.

A mulher de Shayan não se recuperou e ele tem que criar sozinho seu filho de 9 anos, apoiar seus familiares e trabalhar como motorista para sobreviver a cada mês. A fábrica não pagou seus direitos rescisórios. Com a ajuda do seu sindicato e da IndustriALL, conseguiu apenas parte do pagamento. “Estou tentando educar meu filho e fazer o melhor pela minha familia. Se a fábrica me pagar o que deve, poderei dar ao meu filho um futuro melhor.

Fora as pessoas impactadas diretamente pelo virus, a COVID-19 privou milhares de trabalhadores de ter uma renda porque as fábricas paralisaram a produção por falta de pedidos ou foram fechadas.

Manabi começou a chorar enquanto nos contava que a fábrica onde trabalhou como passadeira durante os últimos cinco anos teve que fechar há seis meses. Ao não conseguir pagar o aluguel ou comprar comida, se viu obrigada a individar-se e já não tem onde morar. “Estou individada e não posso pagar. Hoje em dia ninguém está disposto a me emprestar dinheiro. Se meu filho pede alguna coisa para comer, não tenho nada”.

A industria mundial de confecções está falhando com estes trabalhadores, enquanto muitas marcas lançam mão de iniciativas voluntárias ou fábricas individuais.

Se queremos alcançar o trabalho decente no setor de confecções, os compromissos da cadeia produtiva devem ser executados legalmente. Os gestos voluntários não são suficientes. Precisamos de acordos vinculados entre  marcas, fabricantes e  sindicatos. Estes acordos devem garantir aos trabalhadores e trabalhadoras, a proteção social a que têm direito. O recente acordo de saúde e segurança das industrias têxteis e de confeções demonstra o modelo ideal para as relações industriais da atual cadeia produtiva.

É fundamental reforçar o poder sindical dentro do setor. Organizar os trabalhadores e trabalhadoras em nivel local leverá a uma maior mobilização com objetivo de instaurar estas redes de seguridade. Se unirem forças em nivel internacional e particparem da campanha global da IndustriALL, os sindicatos podem ajudar a transformar todo o setor

Para mais informações sobre a campanha da IndustriALL para a proteção social do setor de confecções, faça contato com chajagos-clausen@industriall-union.org.

Obs. Os nomes dos/das entrevistados/as foram mudados para proteger a identidade dos trabalhadores/as, mas todas as pessoas aqui mencionadas são de Bangladesh.

Vale lembrar:

O que é proteçaõ social?

A proteção social é um conjunto de políticas e programas desenhados para reduzir e previnir a pobreza e a vulnerabilidade ao longo de toda a vida. A proteção social inclui proteção para filhos e familiares, assim como no caso da maternidade, do desemprego, acidente de trabalho, doença, velhice, incapacidade, sobreviventes, além da assistência sanitária

Tanto o Estado, através de sistemas contributivos ou impostos, como outras partes interessadas, como empregadores, por exemplo, podem proporcionar proteção social.

Sobre a industria de confecções

Mão de obra femenina: Quase 80% dos postos de trabalho da industria de confecções estão ocupados por mulheres, ainda que elas só chegam a 1/3 da mão de obra do setor de manufaturados em todo o mundo. Os postos de trabalho onde a maioria das trabalhadoras são mulheres, se caracterizam por baixos salários, extensa jornada de trabalho, exposição a riscos à saúde e segurança, assim como violencia e assédio.

No hemisfério sul: A indústria de confecções exige muita mão de obra, poucos investimentos e baixa tecnología, além de acumular pouco valor, de forma que os fabricantes de roupa se concentram aqui. Em alguns casos, a industria de confecções domina a economia de determinadas regiões.

Os efeitos económicos da COVID-19: Os dados governamentais sobre importação para os mercados dos Estados Unidos e Europa refletem uma diferença de 16 milhões de dólares americanos em importações de ropa em 2020. Tal fato se deve a, principalmente, pedidos cancelados.

 

Tradução: João Andrade/CNTRV

Título: Sem proteção social não existe trabalho decente, Conteúdo: Quando Pavi perdeu seu trabalho há dois anos, tudo mudou. Anteriormente, tinha trabalhado como operária numa fábrica de confecções de Bangladesh por mais de uma década. Agora, perdeu sua fonte de renda e está lutando para conseguir sustentar seus três filhos. “Tenho três filhos. Meu marido está parado, muito doente. Sou a única que sustenta a familia. Meus filhos estudam. Tenho que pagar as despesas médicas. Tenho muitos gastos. Quase não posso suportar. As crianças estão na escola e preciso de dinheiro, mas não consigo nada”. Os países do hemisfério sul que produzem ropa oferecem baixos impostos e uma regulação relaxada para as grandes marcas, mas são poucas as que cumprem suas obrigações trabalhistas. O caso de Pavi, a mulher citada acima, não é isolado. No mundo, pooucos trabalhadores do setor de confecções contam com uma rede de proteção social. Uma enfermidade, uma gravidêz ou uma demissão podem levar as famílias à pobreza extrema. A pandemia de COVID-19 ampliou a vulnerabilidade de trabalhdores e trabalhadoras desse setor. Shayan, outro entrevistado, foi demitido depois de faltar no trabalho porque sua esposa estava doente. Trabalhava na mesma fábrica há cinco anos. Sua esposa tinha câncer e foi hospitalizada depois de contrair coronavírus. “Quando retornei para trabalhar na fábrica, me disseram que não precisava voltar no dia seguinte. Usaram uma linguagem muito ofensiva”. A mulher de Shayan não se recuperou e ele tem que criar sozinho seu filho de 9 anos, apoiar seus familiares e trabalhar como motorista para sobreviver a cada mês. A fábrica não pagou seus direitos rescisórios. Com a ajuda do seu sindicato e da IndustriALL, conseguiu apenas parte do pagamento. “Estou tentando educar meu filho e fazer o melhor pela minha familia. Se a fábrica me pagar o que deve, poderei dar ao meu filho um futuro melhor. Fora as pessoas impactadas diretamente pelo virus, a COVID-19 privou milhares de trabalhadores de ter uma renda porque as fábricas paralisaram a produção por falta de pedidos ou foram fechadas. Manabi começou a chorar enquanto nos contava que a fábrica onde trabalhou como passadeira durante os últimos cinco anos teve que fechar há seis meses. Ao não conseguir pagar o aluguel ou comprar comida, se viu obrigada a individar-se e já não tem onde morar. “Estou individada e não posso pagar. Hoje em dia ninguém está disposto a me emprestar dinheiro. Se meu filho pede alguna coisa para comer, não tenho nada”. A industria mundial de confecções está falhando com estes trabalhadores, enquanto muitas marcas lançam mão de iniciativas voluntárias ou fábricas individuais. Se queremos alcançar o trabalho decente no setor de confecções, os compromissos da cadeia produtiva devem ser executados legalmente. Os gestos voluntários não são suficientes. Precisamos de acordos vinculados entre  marcas, fabricantes e  sindicatos. Estes acordos devem garantir aos trabalhadores e trabalhadoras, a proteção social a que têm direito. O recente acordo de saúde e segurança das industrias têxteis e de confeções demonstra o modelo ideal para as relações industriais da atual cadeia produtiva. É fundamental reforçar o poder sindical dentro do setor. Organizar os trabalhadores e trabalhadoras em nivel local leverá a uma maior mobilização com objetivo de instaurar estas redes de seguridade. Se unirem forças em nivel internacional e particparem da campanha global da IndustriALL, os sindicatos podem ajudar a transformar todo o setor Para mais informações sobre a campanha da IndustriALL para a proteção social do setor de confecções, faça contato com chajagos-clausen@industriall-union.org. Obs. Os nomes dos/das entrevistados/as foram mudados para proteger a identidade dos trabalhadores/as, mas todas as pessoas aqui mencionadas são de Bangladesh. Vale lembrar: O que é proteçaõ social? A proteção social é um conjunto de políticas e programas desenhados para reduzir e previnir a pobreza e a vulnerabilidade ao longo de toda a vida. A proteção social inclui proteção para filhos e familiares, assim como no caso da maternidade, do desemprego, acidente de trabalho, doença, velhice, incapacidade, sobreviventes, além da assistência sanitária Tanto o Estado, através de sistemas contributivos ou impostos, como outras partes interessadas, como empregadores, por exemplo, podem proporcionar proteção social. Sobre a industria de confecções Mão de obra femenina: Quase 80% dos postos de trabalho da industria de confecções estão ocupados por mulheres, ainda que elas só chegam a 1/3 da mão de obra do setor de manufaturados em todo o mundo. Os postos de trabalho onde a maioria das trabalhadoras são mulheres, se caracterizam por baixos salários, extensa jornada de trabalho, exposição a riscos à saúde e segurança, assim como violencia e assédio. No hemisfério sul: A indústria de confecções exige muita mão de obra, poucos investimentos e baixa tecnología, além de acumular pouco valor, de forma que os fabricantes de roupa se concentram aqui. Em alguns casos, a industria de confecções domina a economia de determinadas regiões. Os efeitos económicos da COVID-19: Os dados governamentais sobre importação para os mercados dos Estados Unidos e Europa refletem uma diferença de 16 milhões de dólares americanos em importações de ropa em 2020. Tal fato se deve a, principalmente, pedidos cancelados.   Tradução: João Andrade/CNTRV



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